segunda-feira, 2 de maio de 2016

Xô, governistas, xô

[Texto de 18/04/2016]

Meus amigos governistas-analfabetos-políticos estão enfurecidos. Para eles, Dilma Rousseff está sofrendo "um golpe"; para eles, "estão rasgando a Constituição"; para eles, "Eduardo Cunha não merece ser presidente da Câmara"; para eles, "isso é coisa de reacionário"; para eles, "Michel Temer não tem legitimidade".

Eu entendo toda a birra governista. Eu entendo que, para um petista, cometer um crime é moralmente aceitável. Eu entendo, ainda, que eles estão corretos em um aspecto: Eduardo Cunha, sim, tem de ser preso. Mas dizer que Michel Temer não tem legitimidade é tirar, igualmente, a legitimidade de Dilma Rousseff.

Refiro-me aos meus amigos governistas como "analfabetos políticos", justamente, por serem governistas. Em 2014, meus amigos governistas votaram na seguinte chapa: Dilma Rousseff, presidente; Michel Temer, vice. Quem votou em Dilma Rousseff, automaticamente, votou em Michel Temer. Quem comemorou a vitória de um, automaticamente, avalizou o governo do outro. A lógica é tão simples, que apenas um governista analfabeto-político não é capaz de enxergar.

Há governistas em diversos campos. Há governistas no STF: Ricardo Lewandowski é governista, Marco Aurélio Mello é governista, Luis Roberto Barroso é governista. Há governistas no Senado: Renan Calheiros é governista, Telmário Mota é governista, Vanessa Grazziotin é governista. Há governistas na grande imprensa: o portal UOL é governista, a ESPN Brasil é governista, a Rede Record é governista. Os finados Luiz Gushiken, José Janene e Márcio Thomaz Bastos, todos, eram governistas.

Agora, meus amigos governistas analfabetos-políticos querem criar e se instalar numa espécie de governismo de oposição. A manobra, sabe-se, é intelectualmente desonesta. Os 54 milhões de votos, tão exaltados por Dilma Rousseff, com o impeachment, serão transferidos para Michel Temer. Sim: todos os meus amigos governistas que elegeram Dilma Rousseff elegerão Michel Temer.

Eu suporto ser chamado de "reacionário". Eu suporto ser chamado de "golpista". Eu suporto que continuem com o discurso arcaico, cansativo e repetido pelas esquerdas durante os últimos sessenta anos. Eu só não aceito que meus amigos governistas se coloquem ao meu lado. Eu só não aceito que meus amigos governistas se coloquem na oposição a Michel Temer. Isso é passar dos limites. Pelo contrário: vocês o elegeram. Xô!

Sem Dilma, o Brasil ficaria melhor

[Texto de 07/04/2016]

Sim: eu não me canso de citar Diogo Mainardi. Sim: é um dever de todo brasileiro ler seus livros, recitá-los, engoli-los. Sim: Lula é minha anta, repito, é seu melhor livro.

No livro, em 2005, Diogo Mainardi listou alguns jornalistas danosos aos país. Todos, sem exceção, lulistas de carteirinha. Cito-o:

Eu apontei o nome de uns pelegos lulistas na imprensa, e fui considerado um espertalhão leviano em busca de reconhecimento. É por isso que tenho 'horror às esquerdas'. Porque elas mentem. Porque elas enganam. Todas elas. Do stanilismo quercista de Fernando Morais ao onguismo endinheirado de Gilberto Dimenstein, do comunismo de batina de Marcelo Beraba ao populismo futebolístico de Juca Kfouri, do desbunde teatral de Nelson de Sá ao lobismo piantellano de Mario Rosa. O lulismo roubou muito mais do que o collorismo.

Nossos políticos não são menos vagabundos do que nossos jornalistas. Sofremos desde o inocentismo cínico de Eduardo Suplicy ao truculentismo trotskista de José Genoíno. Do coronelismo de José Sarney ao nepotismo de Fernando Collor de Melo. Dos silogismos de José Dirceu ao clientelismo de Jader Barbalho. Do revoltismo inócuo de Ciro Gomes ao denuncismo brizolista de Chico Alencar. Das inovações contraproducentes de Fernando Haddad ao jogo de palavras vazio de Marta Suplicy. Da demagogia socialista de Marcelo Freixo ao charlatanismo bem-feitor de Marina Silva. Do autoritarismo de voz mansa de Benedita da Silva ao esquerdismo jocoso de Eduardo Jorge. Do proselitismo sexual de Jean Wyllys ao maquiavelismo velado de Delcídio Amaral. Do deboche preconceituoso de Eduardo Paes ao leninismo intolerante de Jandira Feghali. Da cascata sindicalista de Cyro Garcia ao marxismo kitsch de Antonio Palocci. Do retrocesso ideológico de Plínio de Arruda Sampaio ao ódio chiliquento de Luciana Genro. Do economês provinciano de Guido Mantega ao, enfim, guerrilheirismo dissimulado de Dilma Rousseff.

O Brasil piorou, consideravelmente, com o lulismo. Ainda em Lula é minha anta, ainda em 2005, Diogo Mainardi escreveu:

Minha proposta é que os parlamentares nomeiem uma comissão de notáveis, composta de juristas e tributaristas, como Raul Velloso, Miguel Reale Jr. e Eduardo Gianetti da Fonseca. Eles seriam encarregados de redigir uma ampla reforma do Estado, para cortar aposentadorias, eliminar impostos, abater sindicatos, suprimir direitos trabalhistas, limpar o Judiciário e diminuir o peso dos políticos, enterrando boa parte das asnices de nossa Carta Constitucional. Depois disso, o texto passaria por um plebiscito. O Brasil ficaria melhor.

Miguel Reale Jr., hoje, é um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Sim: Diogo Mainardi é um visionário. Sim: Miguel Reale Jr. é a nossa salvação. Sim: sem Dilma Rousseff, o Brasil ficaria melhor.

Dilma cairá

[Texto de 13/03/2016]

Diogo Mainardi é o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Sempre esteve do lado correto. Durante a Ditadura Militar, foi contra o Regime. Ao mesmo tempo, foi contra os Comunistas. Foi oposição ao Governo FHC. Em 2006, pediu o impeachment de Lula. Dez anos depois, pede o impeachment de Dilma Rousseff. Trata-se da minha maior referência intelectual.

Para formular o pedido de impeachment de Lula, Diogo Mainardi copiou fielmente o pedido de impeachment de Fernando Collor de Melo. Collor caiu em 29/12/1992. Lula deveria ter caído 14 anos depois. E Dilma Rousseff, agora, cairá 24 anos depois.

Não participei da comemoração do impeachment de Fernando Collor de Melo pois eu tinha pouco mais de 6 meses de vida. Aliás, até hoje, eu não havia participado de nenhuma manifestação. Obviamente, não me perdoo por isto. Meu ato mais trabalhoso foi pedir o impeachment de Dilma Rousseff em 14/10/2014. O pedido foi formulado via e-mail, pois sou demasiadamente preguiçoso.

Diogo Mainardi também é demasiadamente preguiçoso. Em seu melhor livro, Lula é minha anta, ele escreveu: "Quero derrubar Lula, mas só vale se for desse jeito: sem sair de casa e com o karaokê da Chicco. Derrubar Lula de qualquer outra maneira seria conferir-lhe um crédito exagerado."

Passei a semana absorvendo a ideia de precisar sair de casa para derrubar Dilma Rousseff. Sim: sair de casa para derrubar Dilma Rousseff também lhe confere um crédito exagerado. Percebi que todos os manifestantes utilizarão a camisa do Brasil. Não tenho nenhuma camisa do Brasil. A camisa mais próxima ao Brasil que possuo é uma com o mapa do país preenchido com a bandeira de Israel.

Nada pode ser mais representativo para afrontar um petista do que isto. Em A tapas e Pontapés, seu outro livro brilhante, Diogo Mainardi dedicou um capítulo para esmiuçar o nosso antiamericanismo. Mais danoso que o nosso antiamericanismo é o nosso antissemitismo. O Brasil foi peça-chave para a criação do Estado de Israel. Paradoxalmente, os petistas nutrem ódio pelo Estado de Israel. O último ato da antissemita Dilma Rousseff, junto ao Itamaraty, foi negar Dani Dayan para o posto de embaixador de Israel no Brasil.

Sabemos que o segundo mandato de Dilma Rousseff, assim como o segundo mandato de Lula, não existe. É um mandato apenas de resistência. Dilma Rousseff tenta se manter no cargo desde o primeiro dia após sua reeleição. Na última semana, um executivo da Andrade Gutierrez entregou comprovantes de doações ilegais para a campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2014. É o suficiente para expurgá-la. É o suficiente para o impeachment.

Como sou demasiadamente preguiçoso, resistirei em conferir este crédito exagerado e sair de casa para derrubar Dilma Rousseff. Ir ou não à manifestação é igual. Se eu for, Dilma Rousseff cairá. Se eu não for, Dilma Rousseff cairá.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sou brasileiro

Certo dia, Jean-Marie Le Pen - político "de Direita" e líder da Frente Nacional Francesa - constatou que "a seleção francesa tem muitos negros". Lilian Thuram, à época zagueiro da seleção francesa, respondeu a Jean-Marie Le Pen: "Eu não sou negro. Eu sou francês". O Brasil é uma França piorada. Nossos políticos são mais ultranacionalistas que Jean-Marie Le Pen e nossos jogadores de futebol são menos racionais que Lilian Thuram.

O Brasil do PT, apoiado pela classe sindical de trabalhadores, pela classe do funcionalismo público, pela classe dos intelectuais, e pela classe dos analfabetos políticos do Facebook, tem dificuldade em aceitar que somos todos iguais. Para isso, criam essas porcarias para nos diferenciarmos: os ricos e os pobres; os reacionários e os progressistas; os brancos e os pretos; os "de Direita" e os "de Esquerda". Outro argumento comum entre todas essas classes é dizer que "o PT governa para os pobres". Se o PT governa para os pobres, temos que implodi-lo. O Governo tem que acabar amanhã. O papel do Governo não é interferir nas relações humanas, criando leis específicas para grupos ideológicos. O papel do Governo é, sobretudo, enxergar os eleitores como iguais.

Por falar nos analfabetos políticos do Facebook, os questionei sobre quem defende o Governo Dilma nos dias atuais. Um amigo meu - representante fiel desses analfabetos políticos do Facebook e dos que defendem o Governo Dilma nos dias atuais - respondeu : "O que me impressiona é ver pobre e preto apoiando um governo que não é pra ele". Ele se referia diretamente a mim. Para ele, eu sou um "pobre e preto" que votou em Aécio Neves na últimas eleições, ou seja, "em um governador que não governa para mim". Outro equívoco dessa gente é querer defender interesses que não lhes dizem respeito. Essa gente se acha no direito de reivindicar um direito o qual eu - meramente um "pobre e preto", na visão deles - não possuo. Não quero um Governo exclusivamente meu. Não quero cotas raciais, pois a humanidade não é dividida em raças. Não visto uma camisa "100% negro", pois não sou 100% negro.

Prometi que jamais voltaria a perder tempo com um governista. Mas tripudiar de um petista é moralmente aceitável. Melhor ainda é tripudiar de um petista que rema na contramão de seu próprio exercício de cidadania. Cidadão que se preza deve ir atrás de seus direitos por meio da cobrança do Governo. Meu amigo é um governista. Cidadão e governista caminham em lados diferentes. Aliás, meu amigo é um governista que enxerga política como futebol. Uma espécie de Juca Kfouri do Facebook.

Juca Kfouri, que, com seu populismo futebolístico, chegou ao ponto de intitular um grupo como "elite branca", por uma simples vaia à presidente da República. Juca Kfouri e Jean-Marie Le Pen são os exemplos inacabados de que existem imbecis tanto "na Esquerda", quanto "na Direita". Assim como Juca Kfouri estereotipou os torcedores que vaiam a presidente da República, e Jean-Marie Le Pen estereotipou os jogadores da seleção francesa, meu amigo me estereotipou como "pobre e preto".

É a hora de responder ao meu amigo: Eu não sou pobre, nem preto. Eu sou brasileiro.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sobre negros

Segunda-feira. A faculdade é Unisuam. O debate é sobre racismo na mídia, ainda que tenha se falado, majoritariamente, sobre "cotas raciais" em universidades. É a primeira e última vez que comento sobre racismo. Primeiro, pois: nós, brasileiros, não estamos preparados para ouvir opinião contrária à nossa. Segundo: uma discussão sobre negros suscita apenas o preconceito contra negros e o preconceito a favor de negros. Preconceito contra negros é ditado por uma ignorância genuína. A noção de uma cor superior à outra não tem base científica ou lógica. Preconceito a favor de negros é ditado pela ideologia. Aliás, a ideologia é o maior empecilho para que se trate do assunto "negros" no Brasil. Não temos maturidade. Nossa tônica é a de adequar nosso pensamento à nossa ideologia, isto é, nosso ponto de partida não é o embasamento em fatos ou a partir da História da humanidade. Somos alavancados a pensar a partir de um vício ideológico.

É um tanto estranho que, num debate de três horas sobre negros, ninguém tenha citado a figura do principal líder da Comunidade Quilombola dos Palmares: Zumbi dos Palmares. Mais estranho é justificar, como justificou Ludimila de Souza Cruz - uma das debatedoras -, que "cotas raciais são uma dívida com a sociedade negra".

A fonte é o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil:

Zumbi, o maior herói negro do Brasil, o homem cuja data de morte se comemora em muitas cidades do país o Dia da Consciência Negra, mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo.

Tendo como base o raciocínio de Ludimila de Souza Cruz, que os descendentes daqueles que escravizavam têm uma dívida a pagar aos escravizados, é correto afirmar que um descendente de Zumbi dos Palmares - ou seja, um negro - tenha uma "dívida com a sociedade negra". O mesmo serve para os descendentes de José Francisco dos Santos, o "Zé Alfaiate", ex-escravo que negociava africanos em Salvador e no Rio de Janeiro. Quem mais? Bárbara Gomes de Abreu e Lima era negra, dona de um casarão e tinha sete escravos, assim como a angolana Isabel Pinheira. Quem mais? Os historiadores Francisco Vidal Luna e Herbert Klen registraram que, em Sabará, Minas Gerais, "havia mais mulheres negras e pardas donas de escravos que senhoras brancas". Numa breve busca em o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil é possível citar outros exemplos. A conta de negros contra negros não fecha.

O próprio conceito de "cota racial", ao qual Ludimila de Souza Cruz se refere, é furado. Pior: ele pode ser justificado com base em nosso Dicionário. Cito-o: "Negro. De cor escura; muito escuro; preto; que pertence à raça negra; (...)". Subdividir a humanidade em raças é, igualmente, um erro. Negros deveriam unificar seus discursos, afirmando e uniformizando a raça humana e condicionando todos ao mesmo parentesco. A visão deve ser elementar e simplista: somos macacões que evoluíram um tantinho e aprenderam a falar; não devemos nos levar a sério a ponto de nos acharmos um superior ou inferior ao outro. William Reis, integrante do grupo AfroReggae, afirmou que "tinha a cabeça fechada, contra cotas raciais; e agora abriu a mente e é a favor das cotas". Antes, ele achava um absurdo alguém defender uma opinião a favor das cotas. Agora, ele acha um absurdo alguém defender uma opinião contra as cotas. Continua desprezando a opinião contrária à sua. Continua cabeça fechada.

Ainda sobre "cotas raciais", houve quem achasse na plateia do debate - seguida de aplausos - que aquele estudante que tem condição para pagar uma universidade particular não tivesse o direito de tentar ingressar numa universidade pública. É um tantinho irônico você ter essa opinião sendo estudante de - Epa! - uma universidade particular. Ou seja, o raciocínio propõe extinguir o próprio conceito de universidade pública, restringindo-a a um grupo seleto de pobres. Melhor que discutir achismos seria pautar-se de fatos concretos e que dizem respeito à proposta do debate. Quer um fato concreto? Paulo Henrique Amorim, jornalista da Rede Record e blogueiro, foi condenado por "injúria racial" a Heraldo Pereira, jornalista da Rede Globo. Paulo Henrique Amorim afirmou que "Heraldo Pereira era um negro de alma branca" e "que não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde". Sim: um caso de racismo na mídia. Sim: um caso de racismo na mídia que não foi abordado em um debate sobre racismo na mídia. Foi dado espaço para outros assuntos relevantes, como o questionamento de piadas no Zorra Total, programa de humor que tem como único objetivo - vejam só! - fazer piadas.

O caso de Heraldo Pereira deveria ter sido explorado do primeiro ao último minuto do debate. Não foi explorado porque ninguém tem conhecimento do caso. Porque nenhum movimento social de políticas afirmativas nunca se manifestou. Porque nenhum artista descolado escreveu um artigo, nenhum sindicato fez barulheira, nenhuma Ludimila de Souza Cruz esperneou, tampouco o grupo AfroReggae tocou atabaque em forma de protesto. O caso de Heraldo Pereira esbarra na questão ideológica. Heraldo Pereira, um negro e um jornalista de destaque na Rede Globo, não estampa a agenda dessa gente. Conforme deixado claro na palestra, o objetivo é sempre ir de encontro aos "negros oprimidos", personificando-os como vítimas da sociedade, assim, estereotipando os próprios negros à esta condição. Eu aboliria este discurso de coitadismo. Aboliria o sistema de "cotas raciais". Negros passaram a vida inteira buscando ser tratados de forma igual aos brancos. Cotas estimulam exatamente o contrário: que o negro continue a ser tratado de forma diferenciada. Aboliria o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de Novembro, data de morte de Zumbi dos Palmares, o negro que escravizou negros. Aboliria a ideia de enaltecer o debate ideológico no Brasil. E, caso sobrasse tempo, institucionalizaria o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil como livro didático nas escolas públicas. Agora, chega. Não discuto mais sobre o assunto.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Dependentes do lulismo

O lulismo dividiu o Brasil. Entre Direita e Esquerda? Entre Republicanos e Democratas? Entre ricos e pobres? Não: entre aqueles que se viram sozinhos e os defensores de causas.

Os oprimidos, até por serem oprimidos, nunca foram capazes de organizar uma linha de raciocínio comum a eles. Por consequência, apareceram os defensores de causas. Quando o PT surgiu liderado por Lula - com o discurso: "somos defensores de causas" - surgiu também o lulismo. O lulismo está acima da sigla partidária ou da ideologia política. O próprio PT, ao assumir o poder, nunca deu trela para o lulismo. O PSOL, por exemplo, é muito mais lulista. Marcelo Freixo é mais lulista que Dilma Rousseff. Jean Wyllys é mais lulista que Marta Suplicy. Chico Alencar é mais lulista que José Genoíno. Tarcísio Motta é mais lulista que o Professor Luizinho. A imprensa e as artes também estão tomadas por lulistas.

Tome-se a história. Em apenas uma medida o PT absorveu o viés lulista: ao criar o projeto Fome Zero. Os petistas queriam acabar com os programas de transferência de renda, dos quais se orgulham hoje, para instalarem o Fome Zero e se autoafirmarem o Pai do Brasil. Como eles nunca ligaram seriamente para esse negócio de classe menos favorecida, o projeto foi um retumbante fracasso. Há outros projetos petistas como o PAC, que, com Dilma Rousseff, concluiu apenas 15,8% das obras. Ou o Minha Casa, Minha Vida, que é comandado por milicianos no Rio de Janeiro.

A história também mostra que o PT entrou no poder sem um mísero projeto. O tripé macroeconômico do governo Lula? Foi mantido do governo anterior. Plano da moeda? Também mantido. Governabilidade? Igualmente mantida. A corrupção? Não somente mantida, como sutilmente aumentada. Fatalmente, ao listar as façanhas deturpadas pelos petistas, deve-se citar o Bolsa Família. Vou me abster a tentar explicar do que se trata. Copiarei as poucas linhas do projeto de Lei que o sancionou: "Programa tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Bolsa Escola, do Bolsa Alimentação, do Auxílio-Gás". Todos criados por - Epa! - Fernando Henrique Cardoso. Aliás, desconfio que FHC seja mais lulista que muitos petistas. Não é preciso que meia dúzia de otários no Facebook tentem mudar a história: está lá, não pode ser reescrita. A única contribuição de Lula para o Bolsa Família foi assiná-lo, se é que ele dispõe desta habilidade.

Confesso ficar envergonhado ao ter de chegar a este ponto, detalhando um projeto de Lei atroz para o país. A colaboração histórica que o PT nos deu foi a avacalhação política, rebaixando a discussão para quem é o irresponsável pela criação de um assistencialismo o qual nos atrasou. "Bolsas" são um retrocesso. Eu as extinguiria imediatamente. É um tipo de compra de voto pelo estômago que sequer deveria ter nascido no governo FHC. Lula não somente continuou, como o transformou em plataforma de governo. Num dos debates de segundo turno, Dilma Rousseff afirmou que tirou 50 milhões de brasileiros da miséria por meio do Bolsa Família. Fazendo um calculo rápido, conclui-se que 1/4 da população do país ascendeu nos últimos quatro anos. Uma média de 12,5 milhões de pessoas ao ano, ignorando a inflação fora da meta, ignorando a recessão da economia, ignorando o crescimento irrisório do PIB. Nem Marina Silva, durante seu auge, atingiu este nível de utopia.

O fato é que não discutimos melhoras para o país. Como menos impostos, menos sindicatos, menos ministérios, menos poder aos políticos, menos verba pública - ou nenhuma verba pública - para campanhas, menos intervenção estatal - ou nenhuma intervenção estatal - na economia. Devemos, também, enxergar o PT como, de fato, ele é: como o partido que aparelhou o Estado; como o partido que desviou verbas públicas para financiar suas campanhas; como o partido que persegue jornalistas; como o partido capaz de xingar Fernando Collor em 1989 e abraçá-lo quinze anos depois; como o partido que compra blogueiros com o nosso dinheiro; como o partido incapaz de combater o terrorismo e o antissemitismo; como o partido que distribui migalhas em troca de votos.

Nada disso será possível enquanto o Bolsa Família for pauta de discussão. Nada disso será possível enquanto não soubermos nos virar sozinhos.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Pedi o impeachment de Dilma

Site de VEJA. Está lá, em um especial online intitulado A crise no governo Lula: "Quem pode pedir o impedimento de um presidente? Representantes da sociedade civil ou os próprios parlamentares." Imediatamente, procurei um representante da sociedade civil. Deputado é um representante da sociedade civil? Aceito. Quanto menos trabalho eu tiver, melhor.

Na última segunda-feira, encaminhei à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro um pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Precisamente, por intermédio do site da Assembleia. Precisamente, à deputada estadual Cidinha Campos, ignorando que ela seja aliada de Dilma Rousseff. Cidinha Campos é uma das frentes na luta pelo direito do consumidor. Eu, como consumidor, cansei de Dilma Rousseff. Ela não se sustenta mais no governo. Seu governo acabou. Quanto tempo falta para o ano acabar? Dois meses? Prefiro ser governado durante dois meses por Michel Temer. Ele é menos dissimulado do que Dilma Rousseff. Presidente deve ser tratado assim. Roubou? Seus apaniguados aparelharam o Estado? Qualquer cidadão tem o direito de pedir o fim de seu mandato. Nosso país é tão desgraçado que consegue escancarar um lado ruim na democracia, que é a possibilidade de um iletrado ou uma criatura completamente inepta se tornar presidente da República. Em contrapartida, a democracia se confirma como o melhor sistema, por permitir expulsá-los da presidência com a mesma facilidade.

Dentre os pensadores, ninguém melhor do que Henry David Thoreau para expulsar um político do cargo. Ele começa o seu melhor ensaio, A Desobediência Civil, com a frase: "O melhor governo é o que governa menos". Ele continua: "O melhor governo é o que absolutamente não governa". Henry David Thoreau é o responsável pelo meu pedido de impeachment de Dilma Rousseff. O governo dela governou demais. E governo que governa demais acaba tomando um gosto perigoso pelo poder. As recentes delações de Paulo Roberto Costa e de Alberto Youssef confirmam que o governo de Dilma Rousseff não pode continuar. Dilma Rousseff deveria ser afastada no dia seguinte às denúncias.

Tanto Paulo Roberto Costa como Alberto Youssef afirmaram que João Vaccari Neto, tesoureiro nacional do PT, intermediava os desvios de obras da Petrobras para o partido. Afirmaram ainda que as empresas as quais desejavam fechar contratos e serviços com a Petrobras deveriam desembolsar 3% de propina sobre o valor dos contratos: 2% eram destinados ao PT; 1% era fatiado entre o Partido Progressista, Paulo Roberto Costa e Alberto Yousseff. O PT é especialista em propinas. Houve Propinoduto no governo Lula. Agora, há o Propinoduto no governo Dilma.

As informações já seriam um motivo mais do que válido para varrer os petistas do Congresso Nacional. As cifras apenas embasam o pedido de impeachment. A empresa holandesa Trafigura fechou negócios com a Petrobras. Em setembro de 2013, havia um montante de 800.000 dólares acumulado de negociações. Num cálculo rápido, a propina desembolsada por Paulo Roberto Costa, Alberto Youssef e o Partido Progressista estaria em torno de 8.000 dólares. Outra empresa a negociar com a Petrobras foi a Glencore. A revista Época divulgou que, em maio de 2013, foi pago um valor de 9.973,29 dólares a Paulo Roberto Costa. A Polícia Federal identificou depósitos de US$ 4,8 milhões da OAS African Investments Limited na conta da offshore Santa Thereza Services Ltd, controlada por - Epa! - Paulo Roberto Costa. Deixando o investimento furado da refinaria em Pasadena de lado, o caso mais impactante é o do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj. Foram fechados dois serviços sem licitações em 2011: um de R$ 3,9 bilhões; outro de R$ 1,9 bilhões. Calculando os 1% de propina para Paulo Roberto Costa e sua turma, chegamos a R$ 58 milhões.

Numa manobra intelectualmente desonesta, o Congresso Nacional pode alegar que Paulo Roberto Costa e seus cúmplices tiveram apenas benefício pessoal e não político. E que Dilma Rousseff nada tem a ver com as denúncias. Pelo contrário: há denúncias de que Paulo Roberto Costa e seus comparsas compravam apoio eleitoral de políticos com o dinheiro adquirido das artimanhas na Petrobras. Dilma Rousseff, então presidente, seria a maior beneficiária do esquema. O PT fornece uma enxurrada de motivos para que sejam privatizados os órgãos do governo. O mensalão do governo Lula teve suas raízes nos Correios. O mensalão de Dilma Rousseff tem início na Petrobras.

O mais grave é que as contas em que Paulo Roberto Costa e seus doleiros recebiam dinheiro não ficavam em Pernambuco ou em Garanhuns. Estavam em Genebra e em Luxemburgo. Os paraísos fiscais são outra marca dos petistas. Márcio Thomaz Bastos é figurinha carimbada em listas as quais divulgam nome de pessoas que guardam seus dinheiros em contas bancárias localizadas em paraísos fiscais. Quem também sempre aparece nessas listas? Lula, José Dirceu, Antonio Palocci e até o finado Luiz Gushiken. A diferença é que Lula e seus apaniguados passaram ilesos. Dilma Rousseff e seus apaniguados não podem passar ilesos. O site de VEJA diz que "o presidente da Câmara dos Deputados decide se o pedido (de impeachment) é arquivado ou encaminhado aos parlamentares". O presidente da Câmara dos Deputados é Henrique Eduardo Alves. Meu pedido de impeachment deve chegar em suas mãos nos próximos dias. Dilma Rousseff sempre se orgulhou por "não ter nomeado um engavetador geral da República". Agora, ela viverá um dilema. Se o pedido for engavetado, ela continua na presidência. Se o pedido for aceito, ela é expulsa, e poderá se orgulhar eternamente por ter se autossabotado. A questão é se o pedido será avaliado a tempo. Ainda faltam dois meses para o ano acabar?